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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Personagens inesquecíveis

Em razão das férias passei um tempo afastada mas agora estou  de volta, penso no que escrever e me ocorre que espaços como este, que  se destinam a registrar a história local  devem trazer  histórias de homens comuns, ou seja,  daqueles que pelo modelo tradicional de escrever, estariam a margem do registro, ficando o espaço reservado para os que realizaram grandes feitos ou ocuparam lugar de destaque em determinado momento.

Pois bem, esta semana fui surpreendida com a notícia nas redes sociais de que um dos personagens folclóricos guardados com carinho na minha memória, João Medeiros, o conhecido João Popó,  completou seus 109 anos e estava sendo homenageado com carinho por sua família. João Popó juntamente com o Rosca, a Cidália, a Nair, a Dalva Garrão, o Major, a Santinha e tantos outros, foram mais que pessoas comuns, foram personagens que enfeitaram o dia a dia desta cidade e povoaram o imaginário das crianças que viveram sua infância na década de 70.


Todas as pequenas cidades, em todos os tempos, veem passar por suas calçadas estas pessoas que deixam sua marca de maneira diferente do padrão, mas estas pessoas com suas existências tão especiais ficarão  guardadas para sempre na  memória, seja por seu carisma, pelas histórias fantásticas que os rodeiam como virar lobisomem, seja por uma  longa barba branca e  terno cinza surrado, seja como um romântico par, ou mais recentemente como quem  cantava a “Madalena”, ou outro que, inocente como criança, se alegra em assustar seus conhecidos, ou mesmo aquela que, rodeada por seus cachorros, é uma figura tão especial em nossa Canguçu. Não preciso dizer seus nomes, todos nós conhecemos estes que foram citados e outros tantos que passaram por estas calçadas e deixaram suas marcas.


Levantando o véu da história de nosso município, ressurge neste momento um personagem que não cheguei a conhecer, o Patuá, não este Patuá que hoje conhecemos mas um antigo morador desta terra  que muitos canguçuenses com certeza ainda lembram.



Imagem:  Arquivo Fotográfico do Museu Municipal Capitão Henrique José Barbosa


PATUÁ


Não assistiu ninguém ao formidável fim

Daquele homem pobre de corpo tão torto

Quando o acharam calmo e só, estava morto

Morrera só, coerente de viver assim.


Alma boa, a desgraça o não fizera ruim

Lembrava um quasímodo: dava um desconforto

Vê-lo sentado e triste como um Buda absorto

Uma caricatura horrenda para mim!


Alma chumbada a vida,

O corpo ao chão chumbado

Quando bebia muito, esvoaçava os braços

Como se fosse, o pobre, um Ícaro tombado!

Bebera a vida inteira, era esse o seu cunho

E pressentindo a morte escutando seus passos,

Quis morrer calmo e só,

Morrer como um “tutumunho”.


Quem não conheceu o Patuá? Por certo que todos os habitantes de Canguçu e mesmo os forasteiros que estacionaram, ainda que por poucas horas no hotel Brasil, de cuja caridade viveu longos anos, tiveram ensejo de conhecer aquela figura popular a quem a natureza criminosa tudo negara. Achaparrado e disforme, horrente aspecto a locomover-se de mãos ao chão era, entretanto uma alma boa. Em sua memória apresentamos um soneto da verve do Dr. Jorge de Moares,  onde o ilustre vate conseguiu de forma muito feliz apresentar-nos uma imagem nítida do pobre Patuá.


Fonte: Jornal a Voz de Canguçu  ano de 1953 - Museu Municipal Capitão Henrique José Barbosa.



domingo, 4 de novembro de 2018

Casa de carnes Santo Antônio



Meu pai Antônio Farias Reyes, minha mãe Neifa Goulart Reyes, minha irmã Maria Cândida e eu.

Álbum de família

Esta é uma época do ano que a saudades daqueles que nos são caros chegam de mansinho e tomam conta do nosso coração. Não deveria ser assim, mas a correria  do dia a dia ocupa tanto o nosso tempo que chegamos a não ter tempo para sentir saudades, então chega o mês de novembro e dedicamos os dois primeiros dias para sentir saudades, olhar  fotografias e relembrar velhas histórias, buscando reter na memória os olhares, os sorrisos, as palavras, a maneira como eram ditas, enfim, dedicamos tempo a saudade e as lembranças daqueles que ocuparam espaços imensos em nossas vidas.
Então hoje venho relembrar meu pai  e sua atividade, primeira que eu lembro, açougueiro.
Resolvi escrever sobre este assunto primeiro pela saudade, segundo porque parei para pensar sobre esta atividade e  nas mudanças que sofreu nas últimas décadas.
Meu pai teve um açougue de nome Santo Antônio e lembro muito bem  tanto do primeiro local que funcionou como do último; o primeiro açougue do meu pai funcionou em uma casa onde hoje é a casa do casal Renato e Noeli Von Laer,  era uma casa estreita e comprida, possuía apenas uma espécie de  balcão construído de tijolos, rebocado e pintado e com acabamento de pedra, tipo as pedras  que eram colocadas nos balcões de pia nas cozinhas, a pedra no açougue do meu pai era escura, entre o vermelho e o marrom, já na nossa casa, era verde;  mas voltando ao açougue, era tudo muito simples, em cima do balcão uma tábua grande para cortar a carne, essa tábua tinha um prego grande onde era colocado um osso da perna do animal, um osso de uns 10 centímetros  que servia, imagino, para prender a carne na hora de serrar a carne, o que era feito com uma serra manual, tinha também uma balança daquelas de dois pratos onde em uma era colocada a carne e em outra os pesos e para finalizar uma faca super afiada, pois meu pai era ágil no ofício de afiar a faca com a chaira e haviam ganchos onde a carne era pendurada mas não lembro como eram colocados .  Assim era, tudo muito simples, sem geladeiras, câmaras frias, sacolas ou balanças digitais e muitas e muitas vezes também sem carne, sim sem carne,  pois esta não estava disponível no açougue quando as pessoas queriam, precisava espera que o animal fosse carneado. Quando havia carne era colocada uma bandeirola de tecido vermelho próximo a porta do açougue,  este era o aviso de que já havia carne a disposição , sendo assim, a vizinhança ia chegando com pratos e bacias para buscar carne, já que como disse anteriormente, não havia sacolas plásticas para acondiciona-las. Ia esquecendo de registrar que os açougues vendiam apenas carne, nada mais.
Quando eu já era maiorzinha, meu pai construiu um açougue do lado da nossa casa, este sim era moderno, seguindo o estilo dos açougues de Pelotas, onde íamos todos os sábados, no nosso carro “Esplanada” preto com a figura de um leão em cada porta e os bancos forrados de couro vermelho, pois bem, íamos a Pelotas  buscar frangos resfriados  para vender, saliento que era o único açougue da cidade a vender frangos  Como disse anteriormente, foi o primeiro açougue bem equipado de Canguçu, possuía azulejos brancos nas paredes, balcão refrigerado onde meu pai colocava manteiga Damby, maçãs argentinas e a grande novidade iogurte natural; nosso açougue tinha ainda Câmara fria, balança moderna para a época, maquinas de fazer guisado e bife, serra elétrica, enfim, várias modernidades que os outros não possuíam, além de meu pai e meu avô trabalharem de jaleco, também  algo que não era usado na época, mas o que mais se destacava eram os sacos plásticos personalizados  “Casa de carnes Santo Antônio” . Depois de um tempo meu pai acabou vendendo o açougue para o Rubens Pinheiro, se não me engano no ano de 1976. Boas lembranças !!! Saudades dele, do açougue e de todos aqueles que amo e que não estão mais comigo.
Trabalharam em nosso açougue que eu lembro, o Adão, o Sr. Reinoldo, meu avô Tacico e o Gringo; o Teca trabalhava com  meu pai nas carneadas, a Santa derretia a graxa em uma peça fora do açougue e a dona Nadica o limpava aos açougue aos finais de semana.

domingo, 29 de julho de 2018

Revisitando antigo Carnaval de Inverno




          Neste final de semana tivemos o Carnaval de Inverno em Canguçu. Duas noites de frio intenso e espero que de muita diversão para a turma jovem que frequenta este tipo de evento.
Olhando  fotografias fiquei com saudades dos Carnavais da minha época, quando o clube ficava colorido com tantas fantasias, mas as coisas mudam e não se pode viver de saudades, tudo tem seu  tempo, mas me arrisco a dizer que no meu tempo os carnavais eram sensacionais, tanto no calor do verão como no frio do inverno.

Mas revisitando a história, gostaria de registrar que o primeiro Carnaval de Inverno no Clube Harmonia aconteceu no ano de 1988, ano em que fui Rainha do Carnaval e estava ótimo... " Bons tempos aqueles!"

Nos anos seguintes fizemos grandes Carnavais de Inverno com o nosso Bloco Carnavalesco "Deixa Falar" que por 10 anos animou o salão do Harmonia,  junto com outros tantos blocos que alegravam as noites carnavalescas tanto no inverno como no verão.
Sem dúvida a melhor parte dos carnavais de inverno daquela época eram as olimpíadas de blocos como tarefas interessantes, divertidas e charadas  cuidadosamente elaboradas para serem decifradas. Registro aqui uma das tarefas onde precisávamos caracterizar um dos antigos presidente do clube Harmonia juntamente com alguns componentes do bloco em um ponto turístico da cidade, detalhe, precisávamos fotografar e tínhamos até a noite para entregar a fotografia, como não tínhamos a tecnologia que temos hoje, tivemos que correr para Pelotas para revelar a foto.
Na foto alguns componentes do bloco em frente a Casa de Cultura e o Dr. Danilo Campos sendo representado em sua atividade profissional pela amiga Carla Guerra. Aparecem na foto: Patrícia Bento, Flavia Flores, Carla Guerra, Jane e Márcia Guerra da Cunha, Saul Cunha, Géder e Zuleica Barbosa, Simone Soares, Claudia e Cacilda Bento.
A outra foto mostra um desfile em que o personagem principal era PC Farias, com o mapa do Brasil embaixo do braço, telefonando de um orelhão. Deste desenho tenho uma história bastante interessante para contar, mas fica para outra vez.
             
Por essas e outras tenho saudades do carnaval do “meu tempo” parece sempre que era bem melhor, mais tranquilo, mais saudável, mais divertido, porém, tenho a certeza que os jovens de hoje também um dia dirão: -"No meu tempo era muito melhor! Aquilo sim era carnaval, nós é que sabíamos nos divertir !"





Fotos do carnaval de inverno de 1993 – Arquivo particular







segunda-feira, 9 de julho de 2018

A sonhada "Luz Elétrica"



Foto: Arquivo Fotográfico do Museu Municipal Capitão Henrique José Barbosa

A poucos dias a comunidade canguçuense presenciou a demolição de antiga  construção localizada na rua General Câmara, mais precisamente na esquina da rodoviária. Com certeza já estava  feia, mal cuidada, porta e janelas quebradas, enfim, todas estas coisas que acontecem quando uma construção está condenada a ir se deteriorando. Acredito que naquele local será construído um belo e moderno prédio, pelo menos é o que se espera e na opinião da maioria dos canguçuenses, inclusive a minha, nossa cidade merece  ficar bela e aquela antiga construção não colaborava em nada para esse efeito...Pois bem,  casa demolida, terreno aplainado e eu aqui pensando no que estou sentido. Onde estarão os tijolos da antiga Usina Municipal? Eles carregavam a energia de uma época tão singela, quando a vida em “Cangussu”  era  tão pacata; com certeza cada tijolo colocado era carregado  de esperança no desenvolvimento da comunidade, vislumbrava as facilidades que estavam a caminho com a tão sonhada “luz elétrica”. Cada tijolo colocado era uma promessa e uma certeza que tempo viria ( 85 anos depois ) em que nosso Canguçu celebraria a modernidade e demoliria, sem cerimônia,  o sonho tão importante de uma época.
Mas vamos revisitar a História...
Em 31 de dezembro de 1933 foi inaugurada a  luz elétrica em Canguçu e sobre o assunto a  Revista dos 200 anos de Canguçu, na sua  página 79, traz detalhes transcritos do jornal Diário Liberal de Pelotas, datado de 3 de janeiro de 1934. Diz a matéria que para o evento  veio uma caravana  da cidade de Pelotas presidida pelo Cel. Augusto de Assunção como representante do General Flores da Cunha e que após banquete e homenagens é cortada a fita inaugural da tão sonhada Usina pelo Cel. Joaquim Assunção e o Prefeito Conrado Ernani Bento, com certeza feliz e cheio de orgulho, ligava a chave geral trazendo a tão sonhada “Luz Elétrica” a Canguçu. Ainda está registrado na mesma Revista o valor da instalação da luz elétrica, com um custo à  municipalidade de 200 contos de réis, tendo seu motor funcionado cerca de 20 anos sem apresentar grandes problemas. Sabe-se que prestaram seus serviços a Usina Municipal Antônio Casarin, João Escursione, Fritz Mirch, José Gonzales e Albério Rick, entre outros. Esta era a famosa luz que desligava a meia noite, mas esta já é outra história... Até a próxima!!
               

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Exposição Lembranças - Mostra fotográfica Canguçu: seu passado e seu presente

O importante na vida é aquilo que fazemos com amor, por pouco que seja, se nos gratifica não é um fardo nem obrigação, antes pelo contrário é leve e gostoso de realizar.

Imagens da Exposição Lembranças e Mostra fotográfica Canguçu: seu passado e seu presente, realizada pela Academia Canguçuense de História - ACANDHIS- dentro da 16ª Semana Nacional dos Museus.

SEMANA NACIONAL DOS MUSEUS
MUSEUS HIPERCONECTADOS
Novas abordagens, novos públicos


A ACANDHIS  pela segunda vez participa da Semana dos Museus de Canguçu, trazendo uma singela contribuição, porém, um resgate histórico de nossa comunidade de grande importância, visto que ressuscita atividades, lugares e pessoas talvez a muito sepultadas na nossa memória.
Museus hiperconectados, este é o  tema desta Semana Nacional dos Museus e da exposição da ACANDHIS deste ano.
Enquanto pensávamos em como poderíamos contribuir, sem sair da ideia proposta, resgatamos fotografias mostrando um Canguçu que ainda vive na  lembrança de muitos ao lado de fotografias que apresentam o mesmo local na atualidade; trabalho postado pelo acadêmico Géder  Barbosa no facebook em várias oportunidades, com o objetivo de enaltecer esta terra.
Aproveitando a brincadeira que “rolou” na internet – Facebook “Se diz cria de Canguçu mas...” e ai eram postadas as lembranças de cada um, achamos providencial a brincadeira e registramos algumas lembranças para que nossos amigos das redes sociais também registrassem suas lembranças.
Contamos  com o apoio do amigo Eduardo Lobo Costa que gentilmente enviou as lembranças postadas a mais tempo e que não conseguimos capturar. Assim sendo espero que a exposição agrade a todos e que mas que agradar, desperte recordações que gostaríamos que, ao visitarem a exposição, deixassem registradas para que assim possamos nos apropriar mais da História da nossa querida Canguçu.
Resta-nos dizer que são  muitas e muitas lembranças felizes, de um Canguçu que “NÃO FOI”, de um Canguçu que “É” a grande paixão dos filhos desta terra, pois se assim não fosse não guardaríamos com carinho tantas doces lembranças.





quarta-feira, 16 de maio de 2018

De Pelotas a Cangussú em autos Ford

Adoro ler jornais antigos e descobrir estas preciosidades.
Muitas vezes sinto como se tivesse presenciado tudo isso.
Tudo tão singelo e tão significativo.
Reparem na importância dada a educação, visitas importantes obrigatoriamente visitavam a escola, eram acolhidas  com respeito pelos alunos e professores... Tudo tão diferente. Nossos aluno hoje não se empolgam com visitas  as escolas, principalmente se forem políticos e sinceramente não podemos culpa-los, antes, pelo contrario, temos que acompanha-los na indignação.
Tanta coisa mudou neste país, principalmente no que se refere aos valores morais e éticos.
Que pena!

Mas deixemos estas considerações para lá e vamos apreciar esta notícia do ano de 1913.


De Pelotas a Cangussú em autos “Ford”
Empresa Jorge Ribeiro & C.

                Sob os melhores auspícios inaugurou-se a linha de automóveis, da empresa Jorge Ribeiro  &C. entre Pelotas e Cangussú.
                Nesta viagem inicial, a convite, tomaram parte o nosso amigo Sr. Carlos Souza, d’ Opinião Pública, F Paradeda, desta folha e, além do apreciado cavalheiro Sr. Manoel Ribeiro, representante da empresa, os estimáveis senhores Antônio Amaral, Donato Freda, Maurício Correa de Paiva e Marcelino Ribeiro Filho.
                A partida dessa cidade deu-se as 7h 20min da manhã, sob um chuvisqueiro impertinente a previsão, devido as últimas chuvas, de que as estradas encontrar-se-iam más.
                Não quis porém, a boa estrela da empresa, ou dos viajantes, que tão má impressão e pior expectativa se mantivessem, pois os trechos de estradas sucediam-se em condições regulares e o sol, em pouco, tocava os cerros alterosos, vestindo a natureza de galas e aos excursionistas provocando alegrias.
                Os autos, dois novos e excelentes double phaeton de 20 cavalos, da reputada marca Ford, preferidos pela sua construção solida, simples mecanismo e conforto, deslizavam suaves e silenciosos, chegando a desenvolver a velocidade de 45 quilômetros  a hora.
                Em um ou outro ponto esta marcha era diminuída, já pelas condições naturais do terreno, já pela má conservação ou por efeito do trânsito que por eles se faz e que é enorme.
                Pouco depois das 11 horas e despertando a natural curiosidade dos habitantes, que alvoroçados, chegavam às janelas, penetravam os dois autos , aos sons álacres de suas buzinas, na alegre e linda Villa de Cangussú, indo parar à porta de seu operoso  intendente, nosso distinto amigo Sr. Coronel Genes Bento.
                Recebidos com essa tradicional e cavalheiresca hospitalidade rio grandense, os excursionistas ai pouco se demoraram, retirando-se momentos depois, acompanhados do Coronel Genes Bento, para o Hotel Progresso onde fez, gentilmente, servir excelente almoço.Durante este chegavam cavalheiros que iam cumprimentar os forasteiros.
                Terminado almoço e acompanhados dos nossos prestimosos e dignos amigos, Srs. Dr. Cezar Dias, Juiz da Comarca, Major José Albano de Souza, Promotor Público e Coronel João Paulo Prestes, os excursionistas saíram a passeio, visitando o espaçoso e belo edifício da Intendência, o templo Católico sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição e o Colégio Elementar. Neste funcionavam no momento as três classes, com uma frequência superior a 120 alunos.
                Acompanhados do zeloso diretor do estabelecimento, nosso amigo Sr. João Gualberto  Pinto Bandeira, os excursionistas visitaram  as referidas classes, cumprimentando seus inteligentes professores.
                No livro de visitas, o nosso companheiro F. Paradeda  lançou a lisonjeira impressão que lhe causara o Colégio Elementar, subscrevendo todos os presentes.
                Aproximando-se a hora do regresso, os excursionistas dirigiram-se ao palacete do coronel intendente do município, a fim de apresentar-lhe despedidas, sendo recebido pelo Coronel Genes Bento e sua Exma.  e virtuosa esposa que a todos cercava dos mais cativantes afagos.
                Após a ligeira palestra, os presentes foram convidados a passar à sala de refeições, sendo-lhes servida uma taça de champanhe.
                Brindaram por essa ocasião: o Sr. Coronel Genes Bento,  a Empresa Jorge Ribeiro & C., congratulando-se pelo melhoramento, inaugurando e fazendo votos pelo seu melhor êxito; o nosso amigo Cesar Dias que por tantos anos redatou o Correio Mercantil, saudando a imprensa de Pelotas nos representantes da Opinião e Diário ; o nosso companheiro F. Paradeda, ao nosso Coronel Genes Bento e Dr. Cesar Dias, dignos representantes dos poderes municipal e judiciário, o Sr. Manoel Jorge Ribeiro & C., ao Coronel genes Bento e sua distinta família.
                Trocaram-se após as despedidas , retirando-se os excursionistas, gratamente penhorados ao acolhimento do fidalgo Sr. Coronel Genes Bento e sua distinta consorte, para o Hotel Progresso, onde já os aguardavam os velozes e elegantes Fords.
                Permutados outros adeuses , entre votos de: - Boa viagem! Aos que partiram e de: - Até a volta! Aos que ficavam, os motores roncaram, os “chauffeurs” moveram as alavancas , acionaram os “guidons” e as duas viaturas deslizaram rápidas pelas lindas ruas de Cangussú, descobrindo-se os que nelas iam  numa saudação aos seus hospitaleiros habitantes, enquanto as “sirenas” vibravam sonoras, até que seus sons se perdessem ao longe.
                O regresso foi feito como a ida, sem incidentes, graças a perícia dos chauffeurs Hildebrando Ferreira da Silva e Feliciano e portando-se os automóveis de modo a confirmar  a justa nomeada da fábrica Ford.
                Descontadas as paradas, a viagem, tanto de ida como de volta, foi feira em quatro horas, sendo o percurso de 14 léguas para lá e outras tantas para cá.
                É, sem dúvida um tempo excelente, que vai se tornar menor quando se completarem as reparações que os dignos intendentes deste e do município vizinho vão mandar proceder nas estradas.
                Terminando esta breve notícia, damos parabéns a população de Cangussú pelo relevante melhoramento e aos Srs. Jorge Ribeiro &C. desejamos a melhor correspondência à iniciativa que acabam de efetuar.
                É este o horário da empresa: saída de Pelotas às segundas e sextas-feiras ao meio dia. Regresso: às terças-feiras e sábados, às 6 horas da manhã.
                O preço da passagem simples é de 15$000 e redonda 30$000, com 10% de abatimento.

Fonte: Jornal Diário Popular – 31 de julho de 1913- Arquivo Conrado Ernani Bento Cx- A volume 1

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

08 de dezembro - Dia de Nossa Senhora da Conceição


08 de dezembro, dia da nossa padroeira... Dia de Nossa Senhora da Conceição.
Embora não seja católica, estudei no Colégio Franciscano Nossa Senhora Aparecida desde o 4º ano e lá aprendi a conhecer, respeitar e admirar as imagens e a vida dos santos que nos eram relatadas pelas irmãs franciscanas com muito carinho. Mesmo minha família não sendo católica, jamais houve qualquer proibição ou mesmo manifestação de que não deveríamos ir a missa ou participar de todas as festividades ou comemorações da igreja Católica, assim sendo, foram várias as procissões de Nossa Senhora que participei ao longo de minha vida estudantil, sempre com muito respeito e verdadeira adoração. Hoje, não frequento mais a igreja, não vou as missas, as novenas,  ou a procissão de Nossa Senhora da Conceição, mas conservo em meu coração o carinho, o respeito e a fé neste espírito puro, que encarnada na vida terrena, doou-se em amor a humanidade, sendo a mãe de nosso Mestre Jesus Cristo. 

Sobre Nossa Senhora da Conceição, escrevi em uma história para crianças “ A oncinha Acanguaçu”  o seguinte:

Um dia eu andava distraída  quando de repente... Ai!... , que susto, um indiozinho estava bem na minha frente , acabamos ficando amigos e ele me batizou de Acanguaçu, que na língua dele significava , entre outras definições "  Cabeça Grande ". O tempo foi passando e a nossa amizade era cada vez mais forte, até que um belo dia não vi mais meu amiguinho, fiquei triste, desolada, pois tu sabes pequenino que ter um amigo é muito importante. Pois bem, procurei meu amiguinho e não encontrei, custei a compreender que a página tinha virado e que para eu rever meu amiguinho, precisava começar a ler tudo novamente, mas a curiosidade pelo que havia nas outras páginas do livro me fizeram avançar para a próxima página e, quando espiei devagarinho, escondido na margem , pois havia vozes alteradas, dois homens bem diferentes dos índios brigavam; eu não entendia bem o motivo da briga, mas parece que os dois queriam ser donos do mesmo pedaço de terra, até que ouvi falarem em "Nossa Senhora da Conceição" ... Sim ouvi bem direitinho, e a briga acabou, porque eles resolveram doar a terra para  Nossa Senhora da Conceição, uma bonita Senhora, cheia de luz, e fizeram para ela morar uma casinha  branca, pequena, simples mas cheia de paz e, esta Senhora era tão boa, tão querida por todos naquele lugar que homens e mulheres deixaram suas casas e construíram moradas novas, próximas a  Daquela Senhora tão boa e, para deixa-la feliz plantaram flores, fizeram uma bonita praça em frente a sua casinha.
( palavras da oncinha)

E foi assim... Sob o olhar de Nossa Senhora da Conceição que nasceu o nosso município e é assim, sob o Seu olhar protetor, do alto do cerro, que Ela olha por nós e recebe todos os anos o carinho da comunidade católica de Canguçu..  e eu, humildemente lhe agradeço todas as graças derramadas neste município e lhe peço com muita fé a Sua proteção, para que possamos todos sermos envolvidos pela Sua luz, Senhora mãe de Jesus.

Um pouco de história...
        A imagem de Nossa Senhora da Conceição, com cerca de 40 cm de altura “ de rara beleza e fina escultura” é a primitiva, somente despojada  de sua coroa de prata, maculada pelo raio que caiu em 1914. Essa imagem é de origem desconhecida e é mais antiga do que a povoação.
       No ano de 1870, ao término da guerra do Paraguai, foi pela primeira vez substituída no altar mor por acharem-na muito humilde, ao que protestou grande parcela de fiéis, sob a alegação de que:

 “Fora aquela pequenina senhora que batizara, casara e enterrara muitas gerações de fieis e também fora a que assistira as guerras, as dores e as alegrias locais, e por isso, no altar mor deveria ficar.”

            Este argumento encerrou a discussão e determinou sua volta ao altar mor.
            Em 1912- 1914, teve sua integridade ameaçada por raios que penetraram por janela lateral existente à direita do altar mor.
            Quando do incêndio da sacristia em 1921 ela foi salva das chamas pelo jovem canguçuense Valter Oliveira Prestes que, com o risco de queimar-se a salvou das chamas entre aplausos de fieis. Ele pertencia a confissão religiosa episcopal. Um sinal do atual ecumenismo.
            Em 1993, perto dos 200 anos de canguçu, a histórica imagem foi mandada pintar por restaurador especialista em Pelotas pelos casais festeiros da novena de 1993, segundo a professora Maria da Graça Valente da Silveira, em artigo do "Liberal"- Memória da padroeira de Canguçu 1998.


Fonte: Os 200 anos da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. 1800-2000-  autor Coronel Cláudio Moreira Bento.